
Vera Brant
Em 1973, estávamos jantando no Restaurante Xadrezinho,
Carlos Murilo, primo do Juscelino, Déa, sua esposa, e
eu. Vendo aquela quantidade de luz lá longe, a Déa
comentou: – Se o Juscelino estivesse aqui, iria adorar ver
aquelas luzes, ver como Brasília está linda à noite”.
Eu disse: “Vamos
chamá-lo e trazê-lo aqui para jantar”.
Juscelino já havia
voltado do exílio e estava morando no Rio. Insisti no assunto:
– Ligue para ele,
amanhã, Carlos Murilo, e combine para vir.
– Não será possível,
Vera. Ele está proibido de vir a Brasília.
– Proibido? Não é
possível! Tudo tem um limite na vida! Que atrevimento desses milicos, proibir o
criador de Brasília vir visitá-la! E ele pretende obedecer?
– Ele tem receio da
algum constrangimento. E, depois, já houve aquele episódio do avião que não
deixaram descer no aeroporto daqui.
Meses antes,
Juscelino tinha vindo, num avião pequeno, para ver uma fazenda próxima de
Brasília. O avião estava vazando óleo e o piloto pediu autorização para descer.
– O senhor Juscelino
Kubitschek encontra-se na aeronave? Perguntou o controlador de vôo.
– O Doutor Juscelino
Kubitschek, ex-presidente do Brasil, encontra-se, sim, na aeronave. Estamos com
vazamento de óleo no avião e correndo perigo. Pedimos autorização para descer,
imediatamente, disse o piloto.
– Negativo, respondeu
o controlador.
Diante desse absurdo
e percebendo a situação, o piloto procurou um lugar para descer, o que
aconteceu numa fazenda em Luziânia, chamada Casa
Branca, no maior risco.
É evidente que o meu
amigo ficou traumatizado, além de horrorizado. Mas continuei insistindo com o
Carlos Murilo para que o chamasse. Eu me sentia revoltada com a proibição. Até
que um dia, depois de muita luta, Juscelino aceitou.
O Oscar Niemeyer
havia jantado na minha casa, com um pequeno grupo de amigos, e saído às duas da
manhã. No dia seguinte, o Juscelino ligou para o Carlos Murilo às nove horas e
ele ainda estava dormindo. Quando acordou e ligou para JK, ouviu a pergunta:
– Você fez farra, ontem?
– Jantei na casa da
Vera com o Niemeyer, estava a maior delícia.
– Ah, que inveja!
– Inveja porque você
quer, ela já cansou de convidá-lo.
– O problema é que
tenho receio de comprometê-la.
– Você já me disse
isso e eu contei a ela. Ela mandou dizer que mais comprometida do que já está,
não será possível. Fez tudo que era proibido e até foi visitar o Darcy Ribeiro
no exílio, no Peru.
– Então eu vou.
Diga-lhe que estarei aí na quinta-feira.
Às duas e meia da
tarde o Renato Azeredo, na época deputado, ligou-me:
– Tem uma pessoa,
aqui, querendo falar com você.
Veio o Juscelino ao
telefone:
– Minha
querida, cheguei, estou aqui no aeroporto. Me deixaram
descer!
Foi incrível o seu
receio de ser barrado até num avião comum, cheio de passageiros. Eu o havia convidado
para jantar na minha em casa. Chamei um grupo de pessoas amigas que foram fieis
e corretas desde o golpe militar, que não traíram, não se amedrontaram, como
quase todos fizeram, para criar um ambiente afetuoso e alegre.
Foi uma noite muito
feliz. Alguns amigos que eu me havia esquecido de convidar ficaram sabendo da
festa e foram, também. Mais tarde, chegaram dois músicos cantores e, aí, a
festa ferveu, como dizia o Juscelino.
Ele começou a beber
goles seguidos de uísque e eu fiquei preocupada dele ficar de pileque. Estavam
servindo salgadinhos mas, por garantia, fui à cozinha
e pedi ao garçom que trouxesse, com urgência, pão de queijo, para forrar-lhe o
estômago. Dançamos, cantamos, fizemos tudo que fazem as criaturas que se amam e
se reencontram. Principalmente porque, naquela época, não tínhamos muita razão
para rir, nem para festejar. Naquele momento, tínhamos razão de sobra para
comemorar.
Juscelino, dançando
comigo, levou-me até a janela, olhou Brasília lá fora, ficou com os olhos
cheios de lágrimas e disse: “Você não tem idéia do quanto me está fazendo
feliz!”
Às três horas da
manhã, começaram a se despedir e eu achei natural. Já ia me preparar para
deitar, quando ouvi música lá embaixo do prédio. Não resisti e desci. Os dois
cantores tocavam e cantavam e havia uns cinco ou seis casais dançando,
tranqüilamente. O porteiro olhava, espantado. Dancei também, é claro. Nessa
época eu morava num apartamento e os vizinhos nem reclamaram.
No dia seguinte o
Juscelino voltou para o Rio e me escreveu duas cartas, seguidas. A segunda era
para dizer que queria me fazer uma confidência: Havia feito as pazes com
Brasília naquela noite, na minha casa:
“A seu lado, querida
amiga, minha estada em Brasília assumiu aspecto diferente e embora não seja dado a confidência, uma insisto em fazer-lhe: Brasília,
nesses anos tempestuosos que o destino me impôs, deprimia-me quando aí, por uma
circunstância ou outra, tive de estar. Possivelmente minha capacidade de
assimilar vacilasse entre o esplendor do passado, quando então a construímos, e
estas horas intermináveis de borrasca. Desta vez, em sua casa, pude respirar
aura de grande ternura, achando espalhada por todos os cantos a mensagem de um
carinho tão sincero. E a quem devo tudo isto, senão a você, à sua bondade, à sua
capacidade de ser útil, de levar a todos a alegria que mora no seu coração”.
Quinze dias depois,
ligou, todo animado: Estou morrendo de saudades de Brasília e de você.
“Então volte”’, respondi.
E passou a vir,
constantemente.
Era simplesmente
adorável a companhia do Juscelino. Uma noite, fomos ao tal Restaurante
Xadrezinho, para ele ver as tais luzes. Ele ficou eufórico, disse que nós
éramos seus convidados e que ele iria pagar. Pedimos
os pratos e os vinhos mais caros e, no final, o proprietário do Restaurante
veio à nossa mesa dizer que éramos seus convidados, que era uma grande honra
receber o Presidente, estas coisas. Juscelino quase morreu de vergonha,
arrependido dos vinhos caros, do prejuízo que havia dado àquele gentil senhor.
Comprou a fazenda em Luziânia e começou a construção, todo animado. Ele queria,
mesmo, era ficar perto de Brasília, porque de fazenda ele não entendia nada. O
Oscar Niemeyer fez o projeto, lindo, da casa. Foi uma festa, quando a casa
ficou pronta.
No lançamento do meu
primeiro livro, “A Ciclotímica”, onde havia mais de
quinhentas pessoas, ele ficou na maior felicidade. Passou a autografar os
livros, na maior tranqüilidade, dizendo: “Não me deixam lançar os meus livros,
eu lanço o da Vera”.
Foi no Iate Clube a
festa. Havia uma música de fundo e, de repente, ele me tirou para dançar. Eu
achei que não daria certo, foi o primeiro livro que eu escrevi e nunca havia
visto lançamento com dança. Alguém conseguiu um violão e a festa só acabou às
três e meia da manhã.
Era assim: onde ele estava,
ninguém ia embora. Principalmente ele, que adorava cantar e se divertir. Às
vezes a gente estava exausta, com sono, e ele não queria ir embora, era uma
luta.
Certa vez, eu
disse-lhe: “Quando você morrer, os seus sentidos vão ficar aliviados de poder
se desligar, de cansaço. E o seu Anjo da Guarda vai poder dormir”.
A Déa
acrescentou: “E nós também”.
A primeira vez que
fui à fazendinha, fomos dormir às duas da manhã. No dia seguinte, acordei com
um sino tocando, loucamente. Levei o maior susto. Pensei que fosse aviso de
incêndio na mata. Que nada, era ele, todo animado, todo sorridente,
chamando-nos para ver a alvorada, a beleza do nascimento do sol.
Fiquei horrorizada e zangada.
“Onde já se viu ir a uma fazenda e não poder dormir?”, reclamei.
Ele me abraçou, com
carinho, dizendo: “Você não poderia perder esta beleza do nascer do sol. E,
quando a gente está feliz, tem que acordar cedo para curtir, durante mais
tempo, a
alegria. À tarde eu deixo você dormir”.
Achei graça no
“deixo”.
Juscelino abriu um escritório
no mesmo prédio onde trabalho, no Edifício Oscar Niemeyer. Era um sobe e desce o dia inteiro. Ele, no
décimo andar, eu no terceiro. Um dia ele comentou: “Nós dois, no mesmo prédio,
com dois telefones cada um, esses milicos devem estar em pânico!”
Quando o Carlos Castello Branco (colunista
político do Jornal do Brasil) perdeu o filho num acidente, Juscelino
pediu-me que levasse o casal e os dois filhos para passar o dia na fazenda. Foi
a coisa mais linda a atenção e carinho dele e da Sarah com o
Castelinho e a Élvia. Na volta, o Castello
comentou: “A base política, a base de tudo do Juscelino é esse lado humano
extraordinário”.
Quando o Darcy
Ribeiro veio do exílio para se operar do câncer no pulmão, fui para o Rio
fazer-lhe companhia e ajudar a Berta. Juscelino ligava todos os dias. Quando
pretendeu visitá-lo, o agente do Dops que ficava na
entrada do seu quarto, não permitiu. Ele ficou furioso. E reclamou: “Mas se o
Niemeyer, o Hermes Lima e o Carlos Scliar puderam, por quê eu não posso? Não
disseram que esta revolução era contra o comunismo? E eles não são comunistas?
Desaforo! É pura implicância comigo!”
Juscelino foi eleito
para a Academia Mineira de Letras e ficou feliz da vida. Fui à sua posse em Belo
Horizonte e ele estava no maior contentamento. A mineirada toda lá,
abraçando-o. Dias depois, 15 de maio de 1976, me mandou o convite da festa com
esta dedicatória:
“Minha querida Vera,
Não poderia estar ausente às emoções felizes que experimentei no dia da minha posse na Academia Mineira quem conheceu, como você, os infortúnios que assaltaram tantos brasileiros.
Por
um milagre só possível nas criaturas de caráter firme e de coração generoso,
você acompanhou a via crucis de inúmeras
personalidades, alentado-as e ajudando a suportar o espinho dos caminhos.
Agradeço
a sua presença que, no tumulto da grande noite, foi, para mim, uma das mais
gratificantes notas de alegria e conforto. Sinceramente, Juscelino”.

Era sábado. Eu estava
deitada, lendo, quando os dois telefones tocaram ao mesmo tempo. Eram
jornalistas, querendo saber se era verdade que ele havia morrido. Ele estava na
fazenda com o Carlos Murilo, Déa, César Prates, Ildeu e Neusa. Eu também ia, mas
não pude porque um dos sobrinhos que eu criei estava com febre. Perguntei como
foi o boato. Era que ele havia morrido na estrada São Paulo-Rio.
Respondi: “Então não
morreu, não. Se o boato fosse de que ele havia morrido de enfarte, na fazenda,
eu acreditaria. Mas, na estrada, não existe a menor possibilidade”.
O pior é que, na
fazenda, não tinha telefone.
Liguei para um posto
de gasolina, a dez minutos de carro da fazenda, e pedi a um rapaz que atendeu
que pegasse um táxi, fosse lá e me telefonasse na volta.
O Marcos, era o nome dele, foi, voltou e me ligou dizendo que o
Presidente estava lá e mandou dizer que estava me esperando, que eu fosse para
lá. Mais tarde, fui.
Jantamos e, por
debaixo da mesa de vidro, percebi os seus pés (estava descalço) agitados, como
ficavam sempre que estava nervoso. Já era uma hora da manhã,
todos tinham ido dormir, menos Juscelino, Déa
e eu. Fomos para a
varanda e Juscelino me perguntou:
– O que você acha
deste boato?
Eu disse:
– Quer saber, mesmo,
o que eu acho? Acho que fizeram um teste para ver se haveria uma comoção no
país, se o matassem. Mas não houve comoção nenhuma porque eu pedi aos
jornalistas que não dessem a notícia, nem na televisão, nem no rádio, pois eu
tinha certeza que era boato. Mas “eles” devem ter pensado que o povo soube e
não se comoveu. Eu acho que atrapalhei tudo, querendo ajudar.
Ele olhou triste e,
talvez para me consolar, disse:
– Sabe que eu cheguei
à conclusão de que serei muito mais útil ao meu país morto do que vivo? Comigo
vivo eles não vão abrir nem uma fresta.
No dia seguinte, ele
foi para Belo Horizonte, pois havia morrido um amigo seu. Levei-o ao aeroporto
e entreguei-lhe o “Correio Braziliense”, onde havia saído um conto meu, “A Solidão
dos Outros”, para ele ler durante a viagem. A última frase do conto é: “Olhei
para o alto e ainda vi estrelas”.
No avião, ele me
escreveu esta carta:
“Minha querida Vera,
Não
faço outra coisa senão ler. Leio coisas boas e más, mas não posso parar.
Ultimamente procurei penetrar num mundo mais romântico para fugir da pressão
inevitável dos artigos sobre o “produto bruto” balanço de pagamentos e taxas de
inflação.
E
passei a leituras que me encorajavam um pouco mais. Há sempre um período de
fossa para todo mundo. Por que fugiria eu desta agressão?
Confesso-lhe,
agora, no silêncio ruidoso do avião que me leva a Belo Horizonte que tomei um
choque enorme quando li o seu “A Solidão dos Outros”.
Li
com vagar. Pensando, raciocinando.
Em
primeiro lugar, a beleza de sua linguagem despretensiosa. Para escrever no
estilo que é, hoje, o seu padrão é preciso ter cultura, conhecimento da língua
e uma inteligência doida.
Há
quase um mês que estou na
“minha solidão da Fazenda J.K”.
Os
que convivem comigo, os que lá trabalham são cegos, surdos e mudos. Constituem
um mundo apagado.
Recolho-me
à rede da varanda, afino os ouvidos pelo silêncio das quebradas e leio. Mas estava lendo coisas técnicas porque a
tanto me impunha a necessidade de aprender a conhecer a administração das minhas pobres
terras.
Quando
a deixei no aeroporto, fui obrigado a perder um quarto de hora de precioso
tempo ouvindo cumprimentos e gentilezas.
O
jornal queimava-me a mão. Abri-o . Devorei-o. Deslumbrei-me. O seu
estilo singelo e maravilhoso, os temas de espírito colocados com rara mestria,
o conhecimento dos tormentos da alma, as cartas finais e os comentários sobre a
companheira de quarto, me deixaram parado, olhando para fora, vendo o horizonte
correr, veloz, sem perceber que já estava no fim da viagem.
A
comparação do mundo dos angustiados do hospital com as
angústia dos que vivem cá fora, que coisa perfeita, sem paralelo!
Não
quis adiar estas poucas palavras, antes que o avião me deixasse na cidade em
que vivi a minha mocidade. “Olhei para o alto e ainda vi estrelas”.
São
as que me animaram outrora e que ainda me podem trazer algum alívio.
Muito
obrigada, minha querida Vera. Nem uma noite no Céu me daria o prazer da leitura
que terminei agora.
Muitos e muitos abraços.
J.K.
8-8-76 – avião”

Quinze dias após o
boato, no dia 22 de agosto, ele morreu exatamente na estrada São Paulo-Rio.
Na noite do dia 18, fomos, ele,
Olavo Drummond e eu ao Hotel Eron e, quando eles me
deixaram em casa, o Juscelino reclamou que eu não havia, ainda, respondido à
sua última carta. Eu pedi calma, pois a carta era linda demais e eu precisava
estar inspirada para responder à altura. E disse: “Na próxima semana você
receberá a resposta”.
Na volta do enterro
que terminou depois da meia noite, sem conseguir dormir, sentei-me e escrevi
esta carta, para cumprir a promessa e me desabafar.
Ela foi publicada em
vários jornais, e na Revista “O Cruzeiro”,
na coluna do David Nasser.
Juscelino, meu amigo querido:
Você
nem me deu tempo de responder à sua carta. Na quinta-feira tive um trabalho
enorme de rever e corrigir meus contos, para remetê-los a você. Quando
telefonei para a Déa, você já havia seguido para São
Paulo, no avião das nove horas.
Do
domingo, à noite, o Carlos Murilo ligou-me, aflito, para dizer que estava
correndo o boato, outra vez, de sua morte. Fiquei irritadíssima com a falta de
imaginação dos boateiros. Mas resolvi ir
para a casa dele, com uma aflição menor do que da vez anterior.
Os
telefonemas foram-nos assustando. Ficava a lembrar-me da sua expressão naquela
noite de sábado, na fazenda, e do que você havia dito. E pensava: vai ser tudo igualzinho. Eu vou contar-lhe as aflições
da Sarah, das filhas, dos amigos, e ele vai sorrir meio triste, com pena
de ter causado tanto dano às criaturas que ama. Sem nenhuma culpa. Você não se
habituara a causar danos sem culpa. Sempre as pessoas que o amam sofreram sem
que você tivesse, realmente, a intenção de feri-las. Sofreram as injustiças que
lhe fizeram, a sua ausência durante longos anos no exílio, as injúrias, as
ingratidões todas.
Você
já nos devia saber acostumados a esse tipo de mágoa. Mas sofria assim mesmo,
mais com pena da gente do que de você.
Mas...
não é que desta vez foi verdade? Não é que, ainda sem
culpa, você nos deixou, a todos, arrasados de sofrimento?
Não
que o pretendêssemos eterno. Morrer, todo mundo morre, mas debaixo de uma
carreta? Não dava para você morrer de avião, com as milhares
de horas de vôo que você acumulava? Daria para tirar o brevet,
só pelo tempo passado no ar. Não podia, pelo menos, morrer de enfarte? Tinha
que ser nessa violência? Tudo seu foi assim tão violento, com tanta força, com
tanto entusiasmo! Não dava para diminuir a barra um pouquinho neste final?
Olhe,
você não imagina, depois, o que aconteceu. Um terremoto não teria feito tanto
estrago. O seu Brasil ficou estarrecido. A tristeza já não era privilégio de
seus amigos. Era geral. A alegria saiu do rosto das pessoas. Os suspiros e as
lágrimas passaram a ser a mensagem de um desespero. Ninguém se falava, só abraços e soluços, e mágoas muitas.
No
dia seguinte, o seu corpo chegou à sua Brasília, todo coberto com a bandeira do
Brasil. O aeroporto estava lotado. Os táxis carregavam as pessoas de graça,
todos com um pano preto, significando luto. Os motoristas sabiam que, no final
da tarde, teriam de prestar contas aos seus patrões dos quilômetros
percorridos. Mas ninguém estava pensando nos momentos seguintes. Os momentos
seguintes sempre existiram. Um líder enrolado numa bandeira é que é raro.
Os
cordões de isolamento eram enormes. Uma senhora gorda,
simpática, disse para um soldado: “Os senhores estão isolando o quê? Tem
alguma coisa aqui para ser isolada? Nós vimos buscar o nosso Presidente, no
maior respeito que ele nos merece, ele nos pertence e queremos prestar-lhe a
última homenagem. Já não chega o isolamento de todos esses anos que nos
impuseram? Vamos, tirem esta corda”. E o soldado tirou.
Rapazes
de quinze a vinte anos que, ou não eram nascidos, ou eram crianças bem
pequeninas quando você foi presidente, vinham de motocicleta, com camisas
escuras e uma faixa com os dizeres: “Ao nosso querido Juscelino, a nossa
gratidão”.
Como
é que pode? Nessa idade em que eles não estão dando bola para nada, em que
morrer e nascer para eles não faz diferença, como é que tiveram a sensibilidade
e a grandeza de perceber o momento histórico que estavam vivendo? Como foi que entenderam que esta terra que
pisam, este imenso gramado, este excesso de luz e de espaço, estes palácios,
estas praças, as avenidas de imensa beleza, eles os deviam a você?
A
ida até a catedral foi fantástica. Os carros andavam em três filas, a vinte
quilômetros, entre outros carros e outras gentes que aguardavam a sua passagem:
você foi num carro preto, nada bonito. Mas ninguém se importou muito com essas
coisas. Você nunca ligou mesmo para as aparências.
A
Catedral de Brasília era só flor e candango. Nunca vi uma combinação mais
perfeita: a singeleza da flor misturada à pureza dessa gente pobre e simples.
Bateram
palmas quando você chegou. Não entendi bem na hora, mas, passada a minha
burrice, percebi que estavam felizes de ter você com eles. Você
vivo, não deixariam. Você morto, deixaram.
Um
homem escuro queria saber se você seria enterrado no cemitério comum. Eu
respondi que sim. Ele sorriu e respondeu: “Que bom, agora a gente vai até
querer morrer para ficar perto dele”.
Ah, ia-me esquecendo de contar: tinha índio também, uma porção
de índios. Na realidade, tinha de tudo. Mas, o forte mesmo, a massa humana, era
de gente simples, aquele tipo de gente que você sempre amou, gente que sempre
sofreu calada, que suportou tudo, que engoliu tudo, humildemente.
Grande
parte daquela gente não pôde entrar na catedral. Mas deu um jeitinho de vê-lo
através dos vidros. Até lavaram os vidros com aquela piscina circular que o
Oscar chamou de espelho d’água. Alguns não resistiram, entraram pelo tal
espelho e surgiram do lado de dentro, ensopados.
As
coroas eram muitas, centenas. Estavam até bonitas no começo. Mas, depois, os
pobres que não tiveram dinheiro para comprar coroas, resolveram homenagear você
com as coroas alheias. Foram tirando as flores e jogando sobre você, jogando,
na maior felicidade. Parecia uma chuva de flores.
A
missa, propriamente, não houve. Foi uma grande confusão de flores, de palmas,
de hinos, de choros.
A
Sarah teve de se dirigir à multidão pedindo calma. Quando prometeu você a eles,
foi uma tranqüilidade. Voltou a paz na catedral.
Mas
foi paz por muito pouco tempo. Porque, quando você chegou lá fora, para ser
colocado noutro carro (acho que esse não era preto, e sim vermelho, parecia
carro de corpo de bombeiro), tomaram-no nos braços, como num forte abraço de
amigos que não se encontram há anos, e levaram-no, cantando, pelas avenidas da
sua Brasília.
Eram
seis horas da tarde, a sua hora, a hora do pôr do sol
que você tanto adorava. Choravam e cantavam. A voz saía meio desentoada, mas
era o tal nó na garganta que dá na gente quando a emoção é muita.
Sarah,
entre amargurada e feliz, seguiu com as filhas a procissão. Sim, procissão. Era
o que parecia. Era o que era.
Elas
estavam muito tristes, mas muito altivas. Pareciam carregadas de orgulho.
O
caminho era longo, vários quilômetros. Mas ninguém estava preocupado com isso.
Ninguém estava pensando em metros. Todos já haviam caminhado tanto por este
mundo. Tanto. Daqui para ali, dali para aqui, sem destino nenhum.
Agora,
neste exato momento, tinham um destino: colocar em repouso um
homem exausto de tanto sonho e de tantas desesperanças. Deitá-lo para
dormir em paz, ao som do hino de sua pátria e da canção de ninar que sua mãe costumava cantar, ao
adormecê-lo. Fazê-lo descansar das canseiras do mundo, dos sonhos sonhados alto
demais, das esperanças esperadas demais. Adormecê-lo assim, como se adormece
uma criança exausta de esbarrar na mesa, nas cadeiras, na vida.
Deixá-lo
quietinho, sem o perigo de acordar e ter que dessonhar
tudo de novo, desapontando-se.
Dar-lhe
a paz que sempre desejou, mas que nunca pôde ter, pelo seu temperamento ruidoso
e pela mania de ter aspirações grandiosas.
Deixá-lo
ali, sozinho e tranqüilo, sabendo que ninguém mais, ninguém mesmo, poderá ferí-lo.
Receba
o meu último, e o mais emocionado de todos os beijos.
Vera